terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Medos escondidos



Refletindo, lembro ela dizer. Uma menina que se mostrava quebradiça, quando pequena, falava sobre os medos que sentia. Medos que não devia, medos que ainda não tinha. Era engraçado e muitas vezes assustador, o jeito dela contar. Algumas noites, quando acompanhada estava, ela encostava a cabeça na da outra pessoa (piolho com piolho, como diziam) e lá por tantas horas da noite ela dizia:
- Estou com medo.

A menina sem laço, nem fita, contava uma história, contava outra e no meio delas soluçando soltava: 
- Tenho muito medo de ficar sozinha, sem ninguém; medo de ficar só até mesmo com alguém; medo do escuro; medo do homem da rua.
Ela sentia, chorava, dizia e dormia.

Hoje os pés rachados que carregam medos escondidos, agora, parados no ar, me fazem contar e lembrar marcas de um tempo medroso, risonho e tímido. Cicatrizes que não se apagaram, mesmo com o passar dos tempos. Crescemos e elas continuam lá, como um retrato na parede que ao envelhecer encolhe, mas não se acaba, não some com o tempo, não desfaz o momento, só congela vidas que hoje se fazem passadas. 

Refletindo ouço minhas lembranças gritarem, observo o passado e revivo medos que há tanto tempo escutei, mas nunca tive coragem de dizer que sentia, também. Por medo me fiz de forte, mas  enganada, guardei laços e fitas frágeis.
E aquela menina sem laço, nem fita,  foi mais forte que todos os covardes, domou seus medos, lutou com todas as forças, gastou seu último fio de sangue vencendo
o mostro da vida, sem fobia.

As lembranças ainda gritam, mas ela não.

2 comentários:

Luluzinha disse...

Lindo Texto. é encantadora a sua arte. e vislumbrante suas palavras.. Parabens!

Marisa Matos disse...

obrigada luluzinha, bom vê-la sempre por aqui!

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