terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As lembranças de morena Clara




Uma mistura de cores, culturas e manias. Nem tão negra, nem tão branca. Clara era assim. Um meio termo que a incomodava quando criança, porque no fundo ela queria de ser branca. Bobinha. Aquela pequena mal sabia das coisas e já se julgava. Não se gostava. Tentou de tudo. As horas passaram, os dias mudaram, um corpo novo se formou. O tempo tratou de curar essa loucura, que hoje cai em vagaturas lembranças. Silenciosa do barulho. Clarinha, que tinha de claro só os dentes e a alma, passava toda parte do seu tempo na companhia de algumas bonecas de trapos, que ela acreditava ter vida. Abraçadas com as bonecas trapilhas, Clara engolia choros e vontades escondida debaixo da mesa ou outras vezes dentro do guarda-roupa. Tornou-se mocinha, mas nunca deixou de lado as companheiras trapilhas, a cabeçinha cheia de pontos de interrogações flutuantes, em espaçosos momentos a deixava confusa e barulhenta, por dentro. A menina silenciosa virou barulhenta e mais complicada do que o normal talvez as condições, nem tão boas, de sentimentos tiveram suas parcelas de culpa. O fato é que ainda hoje, Clarinha adora bonecas e morre de medo de galinhas e de patos.
Tantas ela viveu, tantas bobagens fez, calou-se em horas impróprias, gritou quando não devia, por raiva, revoltas, frieza. O certo é que, quando criança, uma virose se apossou de seu frágil corpo e só decidiu deixá-la quando ela tomou um certo remédio: altas doses de carinho, atenção, amor. Foi difícil até ela encontrar a receita perfeita, mas diante a essas recordações solitárias, ela que tanto se julgava sem carinho e solitária, foi  tola ao pensar assim. Clara nunca esteve sozinha. A mulher que cuidava dela quando criança e que lhe dava diversos remédios (líquidos, sólidos, caseiros) sempre esteve ao seu lado. Aquela senhora passava noites acordada velando o sono da morena Clara. Mas, o que aquela menininha não entendia era a cara amarrada da velha, o olho fulminante, a voz grossa, o jeito durão de cuidar. Porém, ela lembra dos gestos fortes e firmes da senhora, bem como o gosto forte do chá de picão que ela lhe deu por muitas horas em vários dias. A verdade é que ela cuidava da menina e a amava como sua filha, do jeito dela é claro, um jeito marrento de amar. Só que a menina nunca conseguiu enxergar o seu amor e carinho demonstrados nas noites em claro e no gosto ruim do remédio de hora em hora sem esquecer um minutinho a mais.
Ela não deixava clara se misturar com outras crianças. Ela gritava quando a menina se divertia com as flores. Ela sabia que a pequena morria de medo de galinha e mesmo assim deu uma de presente a ela. Ela  ensinou-a a rezar, ajoelhada, na beira da cama. A menina aprendeu, mas quando cresceu deixou cumprir. Ela nunca ensinou suas superstições, mas isto Clara aprendeu. E só hoje  a morena Clara decidiu abrir suas lembranças e contar as gotas que guardou algumas vezes debaixo da cama.

2 comentários:

Clara disse...

Muito bom, muito bom.
E não é que eu me identifiquei com muita coisa da morena Clara? :P

:*

Marisa Matos disse...

Que bom! Obrigada =D

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